Entrevista Nico Pace

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Nicolás Pace é coordenador de construção do movimento de redes comunitárias junto ao projeto “Connecting the Unconnected” liderado pela APC. Ele também faz parte da AlterMundi A.C., uma organização de base que apoia comunidades rurais vulneráveis em sua busca pela criação de sua própria infraestrutura de telecomunicações, seu próprio pedaço de Internet. Em seu trabalho, Nicolás viajou para diversos países, conhecendo muitas das redes comunitárias existentes e conseguindo entender a diversidade e a complexidade do campo. Atualmente, ele tem trabalhado junto com a REDES A.C., uma organização de base do México, no apoio às comunidades indígenas em seus esforços junto à cosntrução de suas próprias redes. Abaixo segue a entrevista que ele cedeu à CooLab contando um pouco de sua trajetória e compartilhando ideias sobre o futuro da internet e das Redes Comunitárias mundo afora.

1. Quando você começou a trabalhar com Redes Comunitárias?

Comecei a trabalhar com redes comunitárias faz 3 anos… na verdade, tudo começou quando eu estava ainda na universidade e havia um projeto de um aluno que estava fazendo uma rede estudantil entre os alunos que viviam próximos à universidade. Eu queria participar dessa rede, mas como a minha casa estava distante, então não pude, e fiquei na vontade… Anos depois, quando vivi na Bolívia, tive a oportunidade de contribuir com um coletivo chamado El Martadero, em Cochabamba, onde fizemos uma rede mesh na cidade, mas que não funcionou porque nos faltavam experiência e conhecimentos técnicos. Logo, quando deixei a Bolívia disse, bem, como posso fazer para o que nos está faltando? E aí conheci o Altermundi, visitei o Altermundi e me somei ao coletivo para aprender e continuar fazendo redes comunitárias.

2. Quantas redes Comunitárias funcionam na Argentina, e que grupos são mais ativos atualmente?

Entre as experiências de redes comunitárias na Argentina, as redes mais concretas aqui são QuintanaLibre, LaSerranitaLibre, LaBolsaLibre e algumas outras. Já tivemos iniciativas anteriores, que já não existem mais. Um coletivo de Buenos Aires chamado Atalaya Sur está devolvendo redes comunitárias e já realizou duas experiências, uma em Buenos Aires e outra em Salta.

3. Conte-nos um pouco da história do Libre Router.

A história do LibreRouter é uma convergência de vários eventos. Por um lado, partindo da comunidade de redes livres, que logo se torna redes comunitárias, há bastante tempo nós falávamos sobre como manter suporte para dispositivos e como os dispositivos que usamos por vezes vão se tornando obsoletos. Bem, eles vão se tornando obsoletos por conta dos fabricantes, para dar suporte a novos dispositivos, e isso faz com que os dispositivos que utilizamos saiam do mercado. Não podendo dar continuidade ao nosso trabalho, estávamos obrigados a colocar novos esforços para dar suporte a novos dispositivos. Por outro lado, os dispositivos que estão se adaptando para pesquisar em nossas comunidades são sub-ótimos, apenas adaptamos para resolver problemas pontuais. Em paralelo, uma mudança na regulação na comissão de telecomunicações dos Estados Unidos afetou a todo o planeta, de maneira que os fabricantes começaram a bloquear a possibilidade de mudança de funcionamento nos dispositivos sem fio, que era exatamente o que nós fazíamos mudando o software para fazer redes mesh. Isso tudo nos levou a querer desenvolver um roteador livre. Já estávamos trabalhando com libremesh e o Libre Router foi o caminho que necessitávamos para seguir implementando redes livres e comunitárias como estamos fazendo.

4. Conte-nos um pouco de sua experiência pessoal: por quais países andou, o que mais gostou e o que mais lhe surpreendeu em suas viagens?

Estive viajando muito nos últimos 5 anos por todo o mundo. Nos primeiros 3, principalmente na América Latina, e nos outros 2, com Altermundi, temos trabalhando com o tema de redes comunitárias. Tive a oportunidade de visitar muitos países ao redor do planeta, estive em quatro continentes, África, Europa, Ásia e América e passei por mais de 20 países com o propósito de continuar promovendo as redes comunitárias e a metodologia que Altermundi desenvolveu. A ideia de organização comunitária de base com envolvimento individual, pessoal na governança e nas atividades do dia-a-dia da rede comunitária. Eu teria muitas realmente muitas coisas para resgatar das viagens, por um lado, as diferentes histórias de conquista, dos diferentes países conquistadores… Acaba que quase todos os países que visitei foram conquistados, e estão, em sua grande maioria, em desenvolvimento, países que foram conquistados por uma cultura europeia, e isso, portanto, tem muita influência nas diferenças culturais e em como a colonização afetou em seus aspectos culturais. Teríamos que pensar as coisas mais ou menos por aí…

5. Como vê a organização das Redes Comunitárias em torno de grandes organizações como APC e ISOC?

Eu entendo que a participação de ONGs como a APC e ISOC no processo de desenvolvimento das redes comunitárias tem sido essencial considerando a antiguidade e a credibilidade que essas organizações têm no mundo, especialmente junto aos financiadores. Esta colaboração, este aporte que vêm fazendo, por enquanto, segue sendo único no contexto das redes comunitárias já que essas, no momento, não têm a capacidade de convocar interesses financeiros como a ISOC e APC. Assim, elas prestam uma grande contribuição para o movimento com seu apoio às redes comunitárias, que têm ganhado força tanto individualmente quanto regionalmente, podendo então encontrar estruturas de governos, organizações e articulações para poderem se auto-organizar. Esse processo toma tempo e a presença dessas organizações é crucial para chegar a essa experiência de auto-organização.

6. Conte como se deu o processo de criação de uma lei de Redes Comunitárias na Argentina e a possibilidade que isso abriu para acesso a Fundos Universais de financiamento.

O processo da lei de redes comunitárias na Argentina começou já faz vários anos, 4 ou 5 anos, com a lei Argentina digital na qual Altermundi participou ajudando na definição e influenciando esse processo, de interesse sobretudo para a conectividade rural. Desta forma, conseguimos estabelecer uma relação de trabalho com o atual ministro de Telecomunicações, na verdade a ministra, visando o reconhecimento das redes comunitárias na regulação pelo governo argentino. Parte das consequências deste reconhecimento significa a possibilidade de acesso ao fundo Universal, que é ainda um processo em curso e que ainda não se consumou, e estamos trabalhando para ver como vai se dar isso.

7. Qual o papel das Redes Comunitárias para o futuro da conectividade mundial?

Esta é um pergunta complexa. Para mim há duas abordagens complementares. Uma é a influência sobre como se dá a conectividade em um futuro próximo sobre a ideia que conectados conectem a si mesmos por redes comunitárias, que oferecem uma alternativa para aqueles que foram excluídos pelo mercado por não tem poder aquisitivo e assim no mercado não quer conectá-los. Algo como um capricho daqueles que controlam a conectividade. Mas que enfrentam, igualmente, a própria vontade daqueles que querem se conectar e mudar relações de poder, a geopolítica e a política local. Como a conectividade depende de energia, temos que mudar a forma como se distribui a energia. Logo, o como se conecta e com o quê se conecta vai ser afetado. Com isso, afeta-se também as relações humanas, a qualidade e a quantidade de relações de comunicação que se geram, porque hoje em dia o modelo de telecomunicações supõe uma ênfase sobre certos tipos de comunicação: em particular, as comunicações com as grandes corporações estão favorecidas e as comunicações entre os pares estão penalizadas. Então, a comunicação local está duplamente penalizada, e as redes comunitárias duplamente beneficiam a comunicação local. Eu creio que as tecnologias de comunicação entre os pares junto com as redes comunitárias restaram o modelo de Telecomunicações nas comunidades que vão se conectar a si mesmo e isso afetará as matrizes de comunicação global gerando comunidades mais resilientes através da descentralização das comunicações. Esse tipo de comunicação vai criar impactos nos processos sociais e em vários aspectos.

8. Como vê o crescimento das Redes Comunitárias no Brasil?

Meu contato com o Brasil foi muito breve, muito limitado, de modo que não me sinto com suficientes informações para falar da situação no país. Conheci um pouco da CooLab, Conectar, Instituto Bem-Estar Brasil, Art19 e sigo colhendo contatos pelo Telegram, correio eletrônico… mas não teria uma opinião.

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Entrevista Nico Pace

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Nicolás Pace é coordenador de construção do movimento de redes comunitárias junto ao projeto “Connecting the Unconnected” liderado pela APC. Ele também faz parte da AlterMundi A.C., uma organização de base que apoia comunidades rurais vulneráveis em sua busca pela criação de sua própria infraestrutura de telecomunicações, seu próprio pedaço de Internet. Em seu trabalho, Nicolás viajou para diversos países, conhecendo muitas das redes comunitárias existentes e conseguindo entender a diversidade e a complexidade do campo. Atualmente, ele tem trabalhado junto com a REDES A.C., uma organização de base do México, no apoio às comunidades indígenas em seus esforços junto à cosntrução de suas próprias redes. Abaixo segue a entrevista que ele cedeu à CooLab contando um pouco de sua trajetória e compartilhando ideias sobre o futuro da internet e das Redes Comunitárias mundo afora.

1. Quando você começou a trabalhar com Redes Comunitárias?

Comecei a trabalhar com redes comunitárias faz 3 anos… na verdade, tudo começou quando eu estava ainda na universidade e havia um projeto de um aluno que estava fazendo uma rede estudantil entre os alunos que viviam próximos à universidade. Eu queria participar dessa rede, mas como a minha casa estava distante, então não pude, e fiquei na vontade… Anos depois, quando vivi na Bolívia, tive a oportunidade de contribuir com um coletivo chamado El Martadero, em Cochabamba, onde fizemos uma rede mesh na cidade, mas que não funcionou porque nos faltavam experiência e conhecimentos técnicos. Logo, quando deixei a Bolívia disse, bem, como posso fazer para o que nos está faltando? E aí conheci o Altermundi, visitei o Altermundi e me somei ao coletivo para aprender e continuar fazendo redes comunitárias.

2. Quantas redes Comunitárias funcionam na Argentina, e que grupos são mais ativos atualmente?

Entre as experiências de redes comunitárias na Argentina, as redes mais concretas aqui são QuintanaLibre, LaSerranitaLibre, LaBolsaLibre e algumas outras. Já tivemos iniciativas anteriores, que já não existem mais. Um coletivo de Buenos Aires chamado Atalaya Sur está devolvendo redes comunitárias e já realizou duas experiências, uma em Buenos Aires e outra em Salta.

3. Conte-nos um pouco da história do Libre Router.

A história do LibreRouter é uma convergência de vários eventos. Por um lado, partindo da comunidade de redes livres, que logo se torna redes comunitárias, há bastante tempo nós falávamos sobre como manter suporte para dispositivos e como os dispositivos que usamos por vezes vão se tornando obsoletos. Bem, eles vão se tornando obsoletos por conta dos fabricantes, para dar suporte a novos dispositivos, e isso faz com que os dispositivos que utilizamos saiam do mercado. Não podendo dar continuidade ao nosso trabalho, estávamos obrigados a colocar novos esforços para dar suporte a novos dispositivos. Por outro lado, os dispositivos que estão se adaptando para pesquisar em nossas comunidades são sub-ótimos, apenas adaptamos para resolver problemas pontuais. Em paralelo, uma mudança na regulação na comissão de telecomunicações dos Estados Unidos afetou a todo o planeta, de maneira que os fabricantes começaram a bloquear a possibilidade de mudança de funcionamento nos dispositivos sem fio, que era exatamente o que nós fazíamos mudando o software para fazer redes mesh. Isso tudo nos levou a querer desenvolver um roteador livre. Já estávamos trabalhando com libremesh e o Libre Router foi o caminho que necessitávamos para seguir implementando redes livres e comunitárias como estamos fazendo.

4. Conte-nos um pouco de sua experiência pessoal: por quais países andou, o que mais gostou e o que mais lhe surpreendeu em suas viagens?

Estive viajando muito nos últimos 5 anos por todo o mundo. Nos primeiros 3, principalmente na América Latina, e nos outros 2, com Altermundi, temos trabalhando com o tema de redes comunitárias. Tive a oportunidade de visitar muitos países ao redor do planeta, estive em quatro continentes, África, Europa, Ásia e América e passei por mais de 20 países com o propósito de continuar promovendo as redes comunitárias e a metodologia que Altermundi desenvolveu. A ideia de organização comunitária de base com envolvimento individual, pessoal na governança e nas atividades do dia-a-dia da rede comunitária. Eu teria muitas realmente muitas coisas para resgatar das viagens, por um lado, as diferentes histórias de conquista, dos diferentes países conquistadores… Acaba que quase todos os países que visitei foram conquistados, e estão, em sua grande maioria, em desenvolvimento, países que foram conquistados por uma cultura europeia, e isso, portanto, tem muita influência nas diferenças culturais e em como a colonização afetou em seus aspectos culturais. Teríamos que pensar as coisas mais ou menos por aí…

5. Como vê a organização das Redes Comunitárias em torno de grandes organizações como APC e ISOC?

Eu entendo que a participação de ONGs como a APC e ISOC no processo de desenvolvimento das redes comunitárias tem sido essencial considerando a antiguidade e a credibilidade que essas organizações têm no mundo, especialmente junto aos financiadores. Esta colaboração, este aporte que vêm fazendo, por enquanto, segue sendo único no contexto das redes comunitárias já que essas, no momento, não têm a capacidade de convocar interesses financeiros como a ISOC e APC. Assim, elas prestam uma grande contribuição para o movimento com seu apoio às redes comunitárias, que têm ganhado força tanto individualmente quanto regionalmente, podendo então encontrar estruturas de governos, organizações e articulações para poderem se auto-organizar. Esse processo toma tempo e a presença dessas organizações é crucial para chegar a essa experiência de auto-organização.

6. Conte como se deu o processo de criação de uma lei de Redes Comunitárias na Argentina e a possibilidade que isso abriu para acesso a Fundos Universais de financiamento.

O processo da lei de redes comunitárias na Argentina começou já faz vários anos, 4 ou 5 anos, com a lei Argentina digital na qual Altermundi participou ajudando na definição e influenciando esse processo, de interesse sobretudo para a conectividade rural. Desta forma, conseguimos estabelecer uma relação de trabalho com o atual ministro de Telecomunicações, na verdade a ministra, visando o reconhecimento das redes comunitárias na regulação pelo governo argentino. Parte das consequências deste reconhecimento significa a possibilidade de acesso ao fundo Universal, que é ainda um processo em curso e que ainda não se consumou, e estamos trabalhando para ver como vai se dar isso.

7. Qual o papel das Redes Comunitárias para o futuro da conectividade mundial?

Esta é um pergunta complexa. Para mim há duas abordagens complementares. Uma é a influência sobre como se dá a conectividade em um futuro próximo sobre a ideia que conectados conectem a si mesmos por redes comunitárias, que oferecem uma alternativa para aqueles que foram excluídos pelo mercado por não tem poder aquisitivo e assim no mercado não quer conectá-los. Algo como um capricho daqueles que controlam a conectividade. Mas que enfrentam, igualmente, a própria vontade daqueles que querem se conectar e mudar relações de poder, a geopolítica e a política local. Como a conectividade depende de energia, temos que mudar a forma como se distribui a energia. Logo, o como se conecta e com o quê se conecta vai ser afetado. Com isso, afeta-se também as relações humanas, a qualidade e a quantidade de relações de comunicação que se geram, porque hoje em dia o modelo de telecomunicações supõe uma ênfase sobre certos tipos de comunicação: em particular, as comunicações com as grandes corporações estão favorecidas e as comunicações entre os pares estão penalizadas. Então, a comunicação local está duplamente penalizada, e as redes comunitárias duplamente beneficiam a comunicação local. Eu creio que as tecnologias de comunicação entre os pares junto com as redes comunitárias restaram o modelo de Telecomunicações nas comunidades que vão se conectar a si mesmo e isso afetará as matrizes de comunicação global gerando comunidades mais resilientes através da descentralização das comunicações. Esse tipo de comunicação vai criar impactos nos processos sociais e em vários aspectos.

8. Como vê o crescimento das Redes Comunitárias no Brasil?

Meu contato com o Brasil foi muito breve, muito limitado, de modo que não me sinto com suficientes informações para falar da situação no país. Conheci um pouco da CooLab, Conectar, Instituto Bem-Estar Brasil, Art19 e sigo colhendo contatos pelo Telegram, correio eletrônico… mas não teria uma opinião.

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